Luanda – A cidade de Luanda completa, esta quarta-feira, 477 anos, desde a sua fundação, num contexto marcado por complexos desafios, que passam, fundamentalmente, pela implementação de um novo Plano Director e pela construção de infra-estruturas integradas, pelos seus nove municípios.
Por Victor Manuel
Com mais de sete milhões de habitantes, conforme o Censo Geral de 2014, a capital angolana tornou-se, quatro séculos depois da sua descoberta, pelo capitão português Paulo Dias de Novais, um ponto de confluência de várias culturas e povos, que se deparam com problemas estruturantes de fundo.
Fundada em 1576, a mesma regista uma verdadeira metamorfose, sobretudo na sua matriz arquitectónica, que registou mudanças profundas a partir da década de 50, deixando-a sem identidade própria e num tom de contrastes.
Nos últimos 30 anos, a capital de Angola tornou-se, simultaneamente, a mais populosa e a mais complexa do país, desprovida de uma arquitectura padrão e de infra-estruturas básicas e indispensáveis para o seu desenvolvimento.
De referir que, em 2015, foi ensaiado um novo modelo de Plano-Director, que tem como áreas prioritárias de intervenção o Centro da Cidade, a frente marítima, o Corredor de Cambambe e Centro da Cidade de Viana.
Trata-se de um projecto cujo foco assenta, na essência, nas zonas da cidade onde já existem infra-estruturas básicas, como asfalto e energia eléctrica, que, apesar de ser ambicioso, praticamente não saiu do papel, deixando adiado o sonho de mais de sete milhões de munícipes, de ver uma cidade renovada.
Na verdade, Luanda confronta-se, hoje, com problemas de resolução obrigatória e urgente, como a falta de saneamento básico, água potável, luz, transportes públicos, numa urbe com um mau estado técnico das estradas e uma proliferação desordenada de bairros.
Aliado a isso, adiciona-se a falta de uma cintura verde e de espaços públicos adequados para prática de actividades desportivas e de lazer, que existiram na cidade até finais da década de 90, hoje transformados em centros de comércio.
A falta dessas infra-estruturas deixa milhares de munícipes praticamente “confinados” em bairros periféricos, sem opções para a prática de lazer, o que se reflecte, sobremaneira, na actividade dos agentes desportivos e culturais.
Actualmente, Luanda não conta, praticamente, com espaços públicos para a prática de desporto, jardins, parques de infância e salas para a exibição de peças de teatro e filmes, que existiram em grande número até à década de 90.
Cineastas reclamam da falta de espaço
As salas de cinema, por exemplo, transformaram-se em locais de venda de mercadorias, cedidos, maioritariamente, a cidadãos estrangeiros, o que deixa aos fazedores da “sétima arte” a opção pelas salas de conferências (privadas).
Para de inverter esse quadro, o Estado disponibilizou, em 2002, uma verba considerável para a reabilitação dos cines angolanos, o que permitiu, por um lado, o surgimento de novos projectos e de uma nova geração de realizadores, com destaque para Zezé Gamboa, Mariano Bartolomeu e Maria João Ganga.
Todavia, a iniciativa não teve o devido acompanhamento ao nível da construção ou recuperação das salas de exibição, numa cidade onde já “pontificavam”, entre outros, os cinemas Miramar, Avis (actual Karl Marx), Restauração (onde funcionou a Assembleia Nacional), Império (actual Atlântico), São Paulo, Nacional, Tivoli (Corimba), Tropical, Kipaka, Cazenga, África e Ngola Cine.
Surgidos muito antes da independência nacional, estes locais serviam, além da exibição de filmes, para a realização de espectáculos musicais e teatrais, mas, lamentavelmente, deixaram de prestar a actividade para as quais foram erguidos.
Explicou que, em Luanda, as salas convencionais só existem na zona sul, daí a necessidade de criação de mais salas do género em todos os distritos urbanos.
Por sua vez, Evanilde Ferreira, também profissional de cinema, refere que o problema é sensível e prejudica os fazedores da sétima arte, sublinhando que os mesmos conseguem adaptar-se à situação e exibir os filmes em salas de conferências.
Segundo a actriz, caso dependessem das salas profissionais, nunca conseguiriam avançar, ao mesmo que sublinha que têm conseguido ultrapassar algumas das várias dificuldades.
Fesc-Kianda.
Grosso modo, os fazedores de cinema “exigem” a criação de novas salas e mais apoio institucional, numa altura em Luanda rece está a acolher a quarta edição do Festival Internacional de Curta-Metragem, denominada Fesc-Kianda.
O Fesc-Kianda, surgido há quatro anos, para homenagear a cidade de Luanda, é um evento que reúne realizadores, produtores, directores, actores, actrizes, técnicos e mecenas, para abordarem o estado do cinema em Angola, em particular de Luanda.
Trata-se de um evento que ajuda a devolver ao cinema angolano e a dar alguma visibilidade, embora ainda distante dos tempos áureos, em que foram produzidas obras de ficção e documentários, como “A Festa do Boi Sagrado” e “Nelesita”, de Ruy Duarte de Carvalho, “Levanta, Voa e Vamos”, de Asdrúbal Rebelo, “O Ritmo do Ngola Ritmos” e “Carnaval da Vitória”, de António Ole, “Caçulinhas da Bola”, de Beto Moura Pires, ou “Memórias de Um Dia”, de Orlando Fortunato.
Segundo o realizador e produtor de cinema Gabriel Salú, actualmente, já se pode falar com orgulho do cinema em Luanda, exemplificando com a realização do Fesc-Kianda, embora continue preocupante a gritante falta de espaços de exibição, segundo acrescentou.
“Posso afirmar, categoricamente, que já se faz cinema em Luanda, em quantidade e em qualidade. Só nos últimos três anos, tivemos filmes que nada devem aos feitos no exterior”, afirmou, sublinhando que os filmes são bons, desde os aspectos técnicos, passando pelo enredo e pela actuação dos protagonistas.
Defendeu, por outro lado, que existe público para ver os filmes “made in Angola”, o que se precisa são películas bem elaboradas e uma boa divulgação, como ficou provado, apenas para citar estas, com as obras “Mona Nketo” e “Mutumbi”.
Para Evanilde Ferreira, actriz, o cinema em Luanda está no bom caminho, com passos seguros, notando-se maior qualidade nos produtos lançados nos últimos tempos.
Comparativamente ao passado, explica que antigamente o cinema feito em Luanda era amador, mas hoje há mais responsabilidade e profissionalismo.
Na mesma senda, destaca a existência de mais competitividade, facto que, na sua avaliação, é saudável, porque todos os actores, realizadores e produtores começam a preocupar-se em fazer melhor.
Outro fazedor de cinema, Nguabi Silva, é de opinião de que, apesar de haver muito para se fazer, as produções têm saído para o mercado com melhorias significativas.
De acordo com o realizador, a actual geração é a quarta de cineastas angolanos depois da independência e, como tal, tem a obrigação de fazer melhor do que três anteriores.
“A realidade actual é bem diferente. Hoje, já temos uma faculdade de cinema no país e as obras são feitas com maior rigor”, enfatiza.
Fonte: Angop
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