A Covid-19 e o Desemprego

POR: FILOMENO MANAÇAS

À excepção da China, que desde o início adoptou medidas duras e assertivas para combater a enfermidade nas localidades onde surgissem focos da doença, de modo a impedir a sua propagação por outras zonas do seu território, a maior parte dos países do mundo, se não mesmo todos, está a registar um impacto severo
da pandemia de Ciovid-19 sobre as suas economias.

As medidas tomadas pelas autoridades chinesas permitiram conter ao máximo os efeitos negativos da crise sanitária mundial.

De tal sorte que, numa reportagem recente, o jornal espanhol El País titulava que, “em meio à pandemia, a economia chinesa é a vencedora no jogo do tabuleiro económico mundial”.

Mesmo a economia norte-americana, das mais dinâmicas a nível mundial e que sob a administração Trump vinha conhecendo números impressionantes de criação de empregos, que prometia uma recuperação robusta, viu a pandemia travarlhe o ímpeto e fazer recuar muito do que já havia conquistado em pouco tempo.

De acordo com dados recentes do Fundo Monetário Internacional a economia mundial deve sofrer uma contracção global de 4,9 por cento em 2020, com os Estados Unidos a registarem -8%. Apesar disso o Produto Interno Bruto (PIB) da China deverá crescer 1%, muito longe da previsão mais optimista de 6% feita
pelas autoridades de Pequim.

Portanto, com excepção da China, a nível mundial os níveis de desemprego estão a aumentar em cascata como resultado das crescentes dificuldades que a Covid-19 está a provocar em diferentes países, sendo que a situação é actualmente de extrema preocupação, quer nos Estados Unidos quer na Europa de um modo geral, onde a segunda vaga de infecções está a obrigar ao regresso às medidas restritivas que impõem às pessoas o confinamento e limitações na circulação.

Ou seja, dito de outro modo, mesmo nas economias melhor estruturadas e mais desenvolvidas, a problemática da criação de empregos agravou-se de modo particular no actual contexto de crise pandémica, baralhando completamente as promessas políticas e os programas de muitos Governos, deixando-os com
pouca margem de manobra, pois o combate e o controlo da Covid-19 passou a estar no centro das preocupações e a sorver grande parte dos recursos financeiros inicialmente projectados para a execução de outros projectos.

É nesse ambiente de turbulência, a que se junta a queda considerável do preço do petróleo a nível internacional, que se vêm mergulhadas as mudanças políticas e económicas encetadas em Angola. Um verdadeiro freio, que só a falta de bom senso não permite reconhecer como factores de peso que travaram a velocidade
com que as transformações começaram a ser implementadas.

Não há varinha mágica que mude a situação actual e é pura demagogia qualquer partido da oposição querer apresentar-se como a força capaz de mudar o quadro e ultrapassar as dificuldades.

O que se impõe fazer – e é uma das alternativas que alguns países estão a considerar -, o Executivo está a esforçar-se por concretizar, desde o momento em que inaugurou o novo ciclo de governação: a aposta no sector da Agricultura no âmbito da diversificação da economia. Trata-se de um compromisso que não se alcança em meia dúzia de anos, que não produz resultados imediatos, mas o que está a ser feito está no caminho certo.

A urgência de enfrentar a pandemia da Covid-19 não pode, todavia, ser escamoteada, ao ponto de se querer, de forma subreptícia, fazer tábua rasa sobre o problema e desvalorizar todo o esforço financeiro e em recursos humanos e equipamentos que foi desenvolvido para que os prejuízos para o país sejam
os menores possíveis.

Seguramente que tudo seria diferente, em todo o mundo, se a pandemia não tivesse vindo atrapalhar as contas (projecções) que cada país fez, que cada formação política fez como planos a curto/médio prazos.

Fácil de compreender para uns e situação frustrante para outros, as medidas de combate à Covid-19 têm entretanto suscitado, por parte desta última franja de cidadãos, manifestações de protesto em vários países.

No Reino Unido, nos Estados Unidos, na Alemanha, em França, na Itália, enfim, mais recentemente em Espanha. Protestos alguns pacíficos e outros com recurso à violência, com jovens a arremessarem pedras contra bens públicos e privados, a danificarem infra-estruturas e veículos. E, em todos esses países, a Polícia intervém para manter a ordem e tranquilidade públicas quando as manifestações degeneram em cenas de vandalismo.

Os responsáveis pelos danos são detidos (e bem detidos) e levados a responder em juízo, porque em democracia as manifestações são aceites, na condição de que respeitem as leis e, sobretudo, que não dêem lugar à violência. Se lá é assim, se lá quem parte carros alheios e danifica bens públicos é detido/preso, por que razão
há de ser diferente aqui em Angola?

Só mesmo quem quer ver o país a regredir acha que os manifestantes podem fazer e desfazer e continuarem impunes.

Por Filomeno Manaças
Fonte: Jornal de Angola aos 06.11.12